• Eduardo Ferrão - Fotografia

    Poeta da fotografia Quando vi pela primeira vez as fotografias do Eduardo Ferrão se me ocorreu a máxima de que “a fotografia não é o instante fortuito do disparo”. A fotografia de Eduardo Ferrão serve-nos como uma caligrafia que nos faz ver o tempo, num registo em que se combina. Aquilo que torna a alguns oradores emprestando a palavra à oratória, para construir mundos e vida, fá-lo Eduardo Ferrão em registos fotográficos, e não sendo fortuito, traz-nos aquela fulgorosidade algo que nos põe a acreditar que ele tem os seus duendes e os que o fazem estar no lugar e momentos certos, a captar com a objectiva essas imagens tão poéticas, tão nostálgicas e sonhadoras e que nos suscitam a viajar com ele à sua terra, a Beira, passando por outros lugares de encantamento como Maputo. Na sua cartografia poética e de viagem traz ele no seu bojo um cadinho de Viseu. Quem não conhece mais por dentro o Eduardo Ferrão há-de pensar que ele é apenas um fotógrafo de eventos. Eu diria que há um duplo antagonismo neste poeta da fotografia: o que destila a ternura como quem confecciona um alimento para a nossa alma, depois aquele que é capaz de nos mostrar o lado mais triste e sombrio da vida humana. O lado terno é decantado pela presença ou predomínio de imagens da infância, crianças de África, algo transcendental, através da qual podemos entrosar com o africano Eduardo Ferrão, em seus tempos de menino, descalço, entre os seus companheiros e amigos dos arredores, em saltos, aos pneus, em fisgas, na caça aos passarinhos. Jogos e recreios, que infelizmente, o tempo está a apagar, mas que a objectiva dele certamente imortalizará. No lado sombrio que as fotografias de Eduardo Ferrão retratam estão as mamãs moçambicanas, a quem desde logo ele estende o seu afecto, um aceno do coração, procurando dispensar certa atenção em relação a faina sobre a qual, desde a antemanhã se sujeitam elas, ao sol ou à chuva. São mulheres que atravessam a fronteira mais a sul, com a África do Sul, para de lá trazerem vegetais, que negoceiam em mercados das cidades. Um poeta da fotografia é um registador do que passa no dia-a-dia da nossa sociedade. Na poesia a que estas fotografias aludem, sentimos que o que ele nos oferece é também um certo sentido de leveza que pretende ele que vivamos a partir daquilo que a sua objectiva testemunhou. Adelino Timóteo

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